Entenda por que certos conteúdos tomam conta da cabeça das crianças e o que as famílias podem fazer para ajudar as crianças com equilíbrio
O termo Brain Rot vem ganhando espaço nas conversas entre pais, educadores e adolescentes, especialmente por causa das redes sociais. Ele não é um diagnóstico, tampouco um problema clínico em si. É uma expressão popular que tenta descrever aquele momento em que um conteúdo – geralmente, um jogo, uma série, um personagem, um youtuber ou até um tipo específico de meme – ocupa tanto a cabeça da criança que parece dominar tudo ao seu redor e, de repente, ela só quer falar sobre aquilo, brincar daquilo, assistir àquilo, repetir frases, sons e trechos, como se nada mais tivesse graça. Para muitos adultos, pode soar como exagero, vício ou até um comportamento preocupante, mas para as crianças, na maior parte das vezes, é apenas uma forma intensa de viver seus interesses.
A infância é uma fase de descobertas profundas, em que o cérebro ainda está aprendendo a filtrar estímulos, organizar prioridades e lidar com emoções. Por isso, não é incomum que crianças mergulhem de cabeça em temas específicos e passem semanas – às vezes até meses! – totalmente encantadas por algo. E é aqui que o Brain Rot faz morada, porque ele funciona como uma espécie de hiperfoco temporário, geralmente ligado a conteúdos de consumo rápido e repetitivo, como vídeos curtos, músicas virais, animações ou jogos online que estimulam a recompensa imediata. Eles capturam a atenção por serem fáceis, divertidos e altamente sensoriais, oferecendo um conforto familiar que a criança pode revisitar várias vezes ao dia.
No entanto, quando esse hiperfoco ocupa espaço demais, começam a aparecer alguns impactos. O primeiro é a redução do repertório de brincadeiras: em vez de alternar entre diferentes atividades, a criança tende a repetir sempre o mesmo tipo de conteúdo. Ela pode ficar menos aberta ao novo, menos disponível para brincar com irmãos ou colegas e até mais frustrada quando é convidada a mudar de assunto. Outro impacto possível é na regulação emocional. Conteúdos muito intensos, como sons altos, imagens rápidas e narrativas exageradas, podem deixar o sistema nervoso sempre em alerta, dificultando o descanso e tornando as transições (como parar para comer, tomar banho ou dormir) mais cansativas e cheias de conflito.
Além disso, o Brain Rot pode afetar a comunicação. Muitas crianças passam a se expressar apenas com frases de personagens, sons repetidos ou referências que os adultos não entendem. Embora isso faça parte do jogo simbólico infantil, também pode sinalizar que a criança precisa de mais variedade, mais troca real, mais conversa genuína. E aqui não se trata de culpar as telas ou demonizar conteúdos: as telas fazem parte da vida moderna e muitos conteúdos são criativos, educativos e até inspiradores. O ponto é perceber quando um interesse deixou de ser saudável para se tornar tão dominante que limita outras experiências importantes.

Então, o que fazer?
É possível ajudar sem transformar isso em uma batalha. Uma estratégia simples é criar uma rotina mais previsível, com momentos que claramente separam o tempo de telas de outras atividades. Quando a criança sabe que haverá um horário para ver seus vídeos preferidos, ela tende a lidar melhor com o “agora não”. Outra forma é ampliar o próprio tema que ela ama. Se ela está vivendo um Brain Rot de dinossauros, por exemplo, vale trazer livros, massinhas, desenhos, passeios ao museu, brincadeiras ao ar livre que dialoguem com o assunto. Isso mantém o interesse vivo, mas dilui a dependência do conteúdo rápido e repetitivo.
A presença do adulto também faz diferença. Crianças que se sentem vistas, escutadas e acolhidas emocionalmente tendem a lidar melhor com seus hiperfocos. Perguntar sinceramente sobre o que elas gostam, brincar junto, entrar na brincadeira, rir com elas, tudo isso ajuda a transformar o Brain Rot em uma ponte de conexão, não em um muro. Outra dica é variar o ambiente: brincar em diferentes cômodos da casa, ir ao parque, encontrar amigos, criar pequenas missões criativas. A mudança de cenário traz novos estímulos e ajuda o cérebro a “desencantar” naturalmente do conteúdo que tomou conta do dia.

Por fim, é importante olhar com carinho para a raiz do fenômeno. Muitas vezes, o Brain Rot aparece em fases de maior ansiedade, tédio, cansaço, mudanças na rotina ou necessidade de previsibilidade. O conteúdo favorito vira um porto seguro, algo familiar em meio ao caos. Quando entendemos isso, conseguimos acolher sem invalidar, apoiar sem controlar, orientar sem punir. A criança não precisa deixar de gostar do que gosta, ela só precisa de adultos que a ajudem a encontrar equilíbrio, variedade e espaço para crescer em todas as direções.
O Brain Rot não é um vilão, mas um convite para entender como as crianças vivem seus interesses de forma intensa e integral e como podemos acompanhá-las com gentileza, limites claros e espaço para respirar. É sobre ensinar que o mundo é grande, curioso, cheio de possibilidades e que há sempre algo novo para descobrir quando a gente levanta os olhos das telas e abre a porta para o próximo encantamento.