Um convite delicado para falar de morte com as crianças e acompanhá-las na travessia do luto
Falar de morte nunca foi simples, e talvez nunca seja. Mas, quando uma criança está diante dessa palavra grande, dura, definitiva, algo dentro de nós se reorganiza. O impulso de proteger, de suavizar as bordas, de esconder a dor atrás de metáforas bonitas é compreensível, porém, é justamente nesse momento que a criança precisa menos de enfeites e mais de presença. Precisa de um adulto que caminhe ao lado, com passos firmes, mesmo que também doam.
Crianças vivem o luto de jeitos próprios. Às vezes choram, às vezes continuam brincando, às vezes perguntam a mesma coisa mil vezes. A lógica delas não é linear, é circular. Elas vão e voltam na mesma questão, como se costurassem um tecido interno rasgado. Não é teimosia. É elaboração. E o adulto que acompanha essa criança aprende, com o tempo, que perguntas repetidas não significam falta de entendimento, mas uma necessidade profunda de ouvir de novo que o mundo ainda tem alguma forma de ordem.

É por isso que a verdade, dita com simplicidade, é um gesto de amor. “O vovô morreu. Ele não volta mais, mas vai viver sempre nas nossas memórias e no nosso amor.” Não é fácil dizer isso. A vontade de suavizar com “fez uma viagem” é enorme. Mas frases assim podem alimentar esperas que nunca serão atendidas. A morte, por mais dolorosa que seja, precisa caber dentro da realidade da criança. Ela não precisa de fantasias, mas, sim de segurança.
E segurança não nasce de explicações técnicas. Nasce de presença. De um colo que não tenta consertar o que não pode ser consertado. De um olhar que valida: “eu sei que dói”. E nasce de uma postura que não tenta apressar a travessia, porque o luto infantil não segue calendário. Às vezes, a criança chora no dia seguinte, outras vezes semanas depois. Ela pode voltar a fazer xixi na cama ou ficar mais grudada, mais irritada, mais silenciosa. Nada disso é problema. É só a forma como ela tenta colocar para fora algo que ainda não cabe por dentro.
Nessa travessia, a brincadeira ganha um papel precioso. Crianças curam brincando: repetem cenas, desenham memórias, encenam despedidas com bonecos, criam histórias onde quem se foi aparece e desaparece. Não é frieza. É forma. É linguagem. É caminho possível para aquilo que, para elas, ainda é quase impossível nomear.

E, enquanto tudo isso acontece, o adulto também está sentindo. E sentir é importante demais. Crianças se fortalecem quando percebem que a tristeza existe, mas não destrói, que adultos também choram, mas continuam cuidando e que a dor não precisa ser escondida para que o amor seja preservado. Existe algo muito bonito em uma criança que vê um adulto honesto com seus próprios sentimentos: ela aprende, sem que ninguém precise dizer, que o mundo não acaba quando o peito aperta.
Às vezes, porém, a dor se mistura com outras coisas: medo, raiva, silêncios profundos. Em alguns casos, o sofrimento ganha um tamanho que a família não consegue carregar sozinha. Nessa hora, buscar ajuda profissional também é um gesto de cuidado. Psicólogos especializados em infância podem ser essa outra mão que sustenta, que traduz, que acolhe.
No fim das contas, falar de morte com crianças é, antes de tudo, falar de vida. É abrir espaço para que elas descubram que a saudade não é a falta de alguém, mas a presença dessa pessoa dentro delas. O amor continua, ele só muda de forma. E que, mesmo quando o mundo fica um pouco mais triste, há sempre alguém disposto a atravessar a ponte junto.