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Por que meu filho não quer mais brincar sozinho?

Entre pedidos constantes de atenção, telas e agendas cheias, entenda como o tédio pode ser um aliado da criatividade infantil

Em algum momento da infância, muitos pais e mães se deparam com a mesma pergunta, quase sempre acompanhada de cansaço e um pouco de culpa: “Por que meu filho não quer mais brincar sozinho?”. A criança chama o tempo todo, pede companhia para qualquer brincadeira, parece entediada com facilidade e, quando está só, logo reclama que “não tem nada para fazer”.

Esse cenário é cada vez mais comum e não significa, necessariamente, que há algo errado com a criança ou com a família. Ele diz muito sobre o tempo em que vivemos, sobre a pressão por atenção constante e sobre como o tédio, tão malvisto hoje, tem sido praticamente banido da infância.

A infância de hoje quase não tem silêncio. Muitas crianças estão cercadas de estímulos o tempo todo. Há telas, brinquedos que “fazem tudo sozinhos”, atividades dirigidas, aulas, compromissos, música de fundo, adultos sempre disponíveis. Mesmo quando estão em casa, raramente estão, de fato, sozinhas com seus próprios pensamentos.

Sem perceber, nós, adultos, fomos ocupando todos os espaços vazios. Quando a criança demonstra tédio, logo sugerimos algo. Quando reclama, oferecemos uma solução rápida. Quando pede atenção, interrompemos o que estamos fazendo. Tudo isso vem de um lugar de cuidado, afeto e desejo de estar presente, mas também pode acabar ensinando que brincar sozinho não é necessário, nem interessante.

A pressão por atenção constante

Ao se acostumar com a presença contínua de um adulto mediando tudo, a criança pode passar a sentir insegurança diante do tempo sozinha. Ela não sabe por onde começar, o que fazer, como sustentar uma brincadeira sem alguém dizendo o próximo passo.

Além disso, muitos pais carregam uma culpa silenciosa: a sensação de que precisam estar disponíveis o tempo inteiro para compensar a rotina corrida. Essa culpa faz com que a criança se torne o centro absoluto da atenção, o que pode dificultar o desenvolvimento da autonomia. Brincar sozinho não significa abandono. Pelo contrário, é um sinal de que a criança se sente segura o suficiente para explorar o mundo por conta própria.

Mas não é só isso. Ultimamente, o tédio tem sido visto como inimigo, ele assusta os adultos e soa como algo negativo, um problema a ser resolvido. No entanto, para a criança, o tédio é o ponto de partida da criatividade. É no vazio que surgem as ideias. É quando as crianças não têm nada para fazer que elas inventam um jogo, transformam um objeto simples em mil coisas diferentes, criam histórias, organizam pensamentos e experimentam o tempo de outro jeito. Quando evitamos o tédio a qualquer custo, tiramos da criança a chance de criar a partir do nada. O tédio, portanto, é um grande convite à imaginação e criação.

Brincar sozinho é uma habilidade aprendida

Nem toda criança sabe brincar sozinha naturalmente. Essa é uma habilidade que se constrói aos poucos, com apoio, confiança e tempo. Algumas precisam de ajuda para começar, mas não para permanecer o tempo todo. Porém, é importante ter claro de que é diferente brincar com a criança e brincar pela criança. Às vezes, basta sentar por perto, iniciar uma atividade simples e, aos poucos, se retirar. Outras vezes, é preciso resistir ao impulso de intervir, mesmo quando a brincadeira parece sem rumo. Aos poucos, a criança aprende que consegue sustentar aquele momento sozinha e isso é muito potente.

Estimular a brincadeira independente não significa ignorar os pedidos da criança, nem se tornar distante. Significa mostrar, com pequenas atitudes, que ela é capaz.

Algumas posturas ajudam nesse processo:

– Criar rotinas com momentos previsíveis de brincar livre, sem telas e sem atividades dirigidas.

– Organizar o ambiente com poucos brinquedos acessíveis, evitando excesso de opções.

– Validar o sentimento da criança, sem imediatamente resolver o desconforto.

– Oferecer tempo de qualidade em outros momentos do dia, para que a criança não precise disputar atenção o tempo todo.

Autonomia também se constrói no brincar

Brincar sozinho fortalece a autonomia, a criatividade, a capacidade de resolver problemas e até a autorregulação emocional. A criança aprende a lidar com frustrações, a esperar, a insistir, a desistir e a tentar de novo. Esse tipo de aprendizado não acontece em atividades sempre guiadas por adultos. Ele nasce justamente nos intervalos, nos silêncios, nos momentos em que ninguém está dizendo o que fazer.

Se o seu filho não quer mais brincar sozinho, isso não é um fracasso da parentalidade. É um sinal dos tempos e uma oportunidade de reflexão. Talvez seja preciso desacelerar, reduzir estímulos, sustentar o desconforto do tédio por alguns minutos e confiar mais na capacidade da criança.

Aos poucos, ela descobre que dentro dela há ideias, histórias, jogos e mundos inteiros esperando para nascer. E nós, adultos, aprendemos que nem toda pausa precisa ser preenchida, mas apenas respeitada.

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