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Por que as crianças mentem?

O caminho para entender a mentira infantil passa pela compreensão do desenvolvimento, a emoção e a necessidade de vínculo dos pequenos

Que atire a primeira pedra quem nunca contou uma mentira – seja pelo motivo que for. Porém, quando pegamos os pequenos fazendo uso desse artifício, logo bate o desespero. Depois da indignação, vem aquela pergunta carregada de culpa: “Onde foi que eu errei?”. Em seguida, chega a frustração e, às vezes, até a sensação de um não reconhecimento daquela criança. Mas, antes que esses sentimentos embacem a sua visão, entenda que ali existe um convite importante: olhar para a mentira como uma expressão do desenvolvimento emocional e cognitivo da criança e não como um desvio de caráter.

As crianças aprendem sobre o mundo testando limites, experimentando possibilidades e tentando entender como seus sentimentos convivem com os sentimentos dos outros. Mentir, nesse contexto, não é um sinal de uma falha de caráter, mas uma ferramenta ainda desajeitada de comunicação.

Além disso, os pequenos vivem num mundo em que o imaginário é tão forte quanto o concreto. Isso significa que quando elas dizem que não foram as responsáveis pelo desenho na parede, às vezes, não é mentira: é que a fantasia sobre o que deveria ter acontecido se mistura com o que de fato ocorreu. A mentira também pode ser um ensaio de independência, por exemplo, quando os pequenos dizem que já escovaram os dentes, mesmo não tendo escovado. E isso é parte natural do desenvolvimento.

Além disso, se a reação dos adultos costuma ser rígida diante dos erros, a criança aprende que ocultar é mais seguro do que contar a verdade. Assim, a mentira surge como defesa e não como maldade. Por isso, é tão importante observar como reagir diante dos erros do dia a dia.

Muitas mentiras infantis também nascem do desejo sincero de não decepcionar quem amam. A criança teme entristecer o adulto e tenta preservar o afeto, mesmo que de um jeito atrapalhado. Mas não é só isso. Quando sentimentos como medo, vergonha, culpa ou vontade de pertencer aparecem, a criança tende a escolher o caminho que parece mais rápido para se proteger.

Talvez, agora você esteja se perguntando o que fazer quando sua criança mente. Primeiro de tudo: respire antes de reagir. O susto e o incômodo podem nos levar a respostas duras, mas isso não ajuda a construir confiança. Uma pausa, mesmo que de segundos, permite que o adulto esteja no comando e não o impulso. Em seguida, em vez de dizer “Você é mentiroso”, prefira algo como “Percebi que o que você me contou não combina com o que aconteceu. Vamos tentar entender isso juntos?”. Assim, a criança não internaliza a mentira como parte de sua identidade.

As crianças só se sentem à vontade para contar a verdade quando percebem que os adultos conseguem lidar com ela sem explodir. Isso não significa ser permissivo, mas firme com gentileza. Algumas perguntas simples como “Você ficou com medo de me contar?”, “Você achou que eu ia brigar?” ou “Você não queria me deixar triste?” funcionam muito bem com os pequenos. Lembre-se: quando a criança se sente compreendida, a necessidade de mentir diminui.

Aproveite para explicar por que a verdade é importante. Para além de “porque eu mandei”, vale mostrar o sentido: “Quando você me conta o que aconteceu, eu posso te ajudar melhor” ou “A verdade nos ajuda a confiar um no outro”. Se a criança mentiu sobre não ter feito a lição de casa, por exemplo, a consequência natural é fazer a atividade junto com alguém que possa orientar. A reparação é educativa, a punição não.

E tem mais: dizer que o amiguinho não mente ou que a criança te decepciona quando conta uma mentira não educa, pelo contrário, fere os pequenos. E crianças feridas mentem mais, porque passam a temer o julgamento.

O que mais ajuda nesse processo?

Quando errar não significa perder amor ou acolhimento, as crianças deixam de esconder suas falhas. Portanto, crie um ambiente familiar em que cometer erros não seja o fim do mundo. Além disso, crianças percebem tudo. Quando o adulto promete e não cumpre, inventa desculpas ou “ameniza” situações, elas aprendem que pequenas mentiras fazem parte do cotidiano. A educação começa nos gestos mais simples.

Também é importante abrir espaço para perguntas, dúvidas e medos. Uma criança que se sente ouvida não precisa mentir para ser compreendida. E entenda que se a criança mente com frequência ou de forma elaborada, essa atitude pode ser um pedido de ajuda: medo excessivo de errar, insegurança, ansiedade, dificuldade escolar ou outras tensões internas. A mentira, nesse caso, é um sintoma e não o problema em si.

Tenha em mente que quando uma criança mente, ela não está desafiando os adultos, mas dizendo, do jeito que consegue, que precisa de compreensão, segurança, acolhimento e limites claros. Ao invés de pensar “isso não pode acontecer”, procure pensar “o que essa mentira está tentando me contar?”. Porque educar não é apenas corrigir comportamentos, mas acompanhar a criança na construção de quem ela está se tornando. E isso inclui ajudá-la a aprender que a verdade é um caminho de cuidado mútuo, confiança e afeto.

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