O que a criança comunica quando age como se quisesse voltar a ser bebê e como os adultos podem acolher esse pedido
Em algum momento da infância, muitas famílias se deparam com uma cena curiosa e, às vezes, preocupante. A criança que já falava direitinho começa a “falar como bebê”. Aquela que dormia sozinha passa a pedir colo, mamadeira, chupeta ou quer dormir na cama dos pais. Outras vezes, o pedido vem em palavras: “não quero crescer”, “quero ser pequeno de novo”, “quero ser bebê”.
À primeira vista, isso pode soar como regressão ou até preguiça de aprender coisas novas. Mas, na maioria das vezes, esse comportamento é uma forma legítima de comunicação emocional. A criança está dizendo que algo dentro dela pede mais cuidado, mais segurança e menos cobrança. Era exatamente isso que a pequena Sofia, de 4 anos, estava dizendo para sua mãe, a jornalista Luciana Fuoco, quando gritou em alto e bom som que odiava ter quatro anos e queria voltar a ter três anos, porque a vida era melhor. “Sofia sempre se expressou muito bem verbalmente, ainda assim, levei um susto quando ela disse, aos prantos, que queria ter três anos de novo, porque era horrível ter quatro anos e que a vida dela era melhor antes”, conta a mãe.

Quando Sofia nasceu prematura extrema, Luciana fechou sua agência de comunicação e voltou a ser freelancer. Os dias se passaram com as duas sempre juntas. Se o trabalho exigia uma viagem a São Paulo, a menina ia junto e ficava com a avó materna, enquanto a mãe trabalhava. Até que essa rotina foi quebrada com a entrada na escola. “Sofia faz aniversário no início de fevereiro e as aulas começaram no fim de janeiro, então, ela entrou na escola ainda com três anos, mas dias depois completou quatro anos”, relembra a mãe. Na mesma época, Luciana foi contratada para ser assessoria de imprensa de uma grande empresa de Recursos Humanos e, no início do trabalho, precisou viajar muito a São Paulo. “Nesse período, meu marido estava com horário de trabalho bem flexível, então, ele ficava com Sofia, que estava indo para a escola. Ela preguntava por que não podia ir comigo e ficar com a vovó e eu respondia que era porque agora ela precisava ir para a escola”, relembra.
O caldo dos sentimentos confusos estava formado. Para a pequena, crescer e ir para a escola era o grande motivo não só da separação repentina com a mãe, mas também da possibilidade de convivência mais contante com os avós, já que a família mora no litoral de São Paulo.
Voltar a ser bebê não é voltar atrás
O desenvolvimento infantil não acontece em linha reta. Ele é feito de avanços, pausas, saltos e, sim, pequenos retornos a comportamentos já superados. Esses momentos são chamados de regressões e fazem parte do crescimento saudável. Quando uma criança volta a agir como bebê ou uma criança menor, ela não está perdendo habilidades, mas está buscando apoio emocional para seguir adiante depois. É como se dissesse, sem palavras: “Eu sei fazer coisas novas, mas agora estou cansado.”, “Preciso sentir que ainda sou cuidado.”, “Está tudo muito grande para mim.”
Na maioria das vezes, o desejo de “não crescer” aparece em períodos de mudança ou excesso de estímulos. Alguns exemplos comuns dessas fases são:
– Chegada de um irmão ou irmã, quando a criança teme perder espaço ou atenção
– Entrada na escola ou mudança de turma, que traz novas exigências sociais e emocionais
– Mudanças na rotina, como separação dos pais, mudança de casa ou perda de alguém querido
– Excesso de expectativas, quando o adulto reforça demais frases como “você já é grande”, “isso é coisa de bebê”, “criança grande não chora”
– Cansaço emocional, mesmo sem um motivo aparente para os adultos
Nesses momentos, o corpo e o comportamento da criança falam antes que ela consiga organizar tudo em palavras.

“Não quero crescer” também é medo
Crescer, para uma criança, não é apenas ganhar autonomia. É também perceber que o mundo tem regras, limites, frustrações e responsabilidades. Para alguns pequenos, isso pode ser assustador. Ao dizer que não quer crescer, a criança pode estar expressando medo de errar, de decepcionar, de perder o colo, o tempo e o olhar atento dos adultos e também medo de não dar conta do que esperam dela. Por isso é tão importante lembrar que crescer não deveria significar deixar de ser cuidado. Quando essa mensagem não fica clara, a criança tenta, do jeito que consegue, voltar para o lugar onde se sentia mais segura.
O primeiro passo para os adultos acolherem esse sentimento é não apressar nem ridicularizar esse comportamento. Frases como “isso é feio”, “para com isso”, “você já é grande demais” tendem a aumentar a insegurança e prolongar a regressão. Em contrapartida, algumas atitudes ajudam muito, por exemplo:
Acolha sem julgamento: se a criança pede colo, mamadeira ou fala como bebê, acolha com tranquilidade. Muitas vezes, só esse acolhimento já é suficiente para que o comportamento passe.
Nomeie o que você percebe: dizer algo como “acho que você está precisando de mais carinho hoje” ajuda a criança a se sentir compreendida e a aprender a reconhecer suas emoções.
Garanta que crescer não significa perder amor: reforce, em palavras e atitudes, que ela continuará sendo cuidada, mesmo ficando mais velha.
Evite comparações: cada criança tem seu tempo, portanto, comparar com irmãos ou colegas pode aumentar o medo de não corresponder às expectativas.
Observe o contexto: avalie o que mudou recentemente na vida da criança, pois muitas respostas estão na rotina e não no comportamento isolado.
Na maioria dos casos, esse desejo de voltar a ser bebê ou menor do que se é costuma ser passageiro e desaparece quando a criança se sente novamente segura. No entanto, vale buscar orientação profissional se a regressão é muito intensa e prolongada, se vem acompanhada de sofrimento evidente, se a criança perde interesse por atividades que antes gostava ou se há mudanças bruscas de humor ou comportamento. Nesses casos, um olhar especializado pode ajudar a compreender melhor o que está por trás desse pedido silencioso.
Crescer não precisa ser sinônimo de solidão emocional. Crianças que sabem que podem voltar ao colo quando precisam costumam se sentir mais seguras para explorar o mundo. Quando uma criança diz “não quero crescer”, ela não está rejeitando o futuro, mas está pedindo uma coisa muito simples e muito profunda: “Fique comigo enquanto eu aprendo a ser maior.” E, sempre que possível, esse pedido merece ser atendido com presença, escuta e afeto.