fbpx
 

O que fazer quando o livro não encanta?

Estratégias sensíveis e possíveis para respeitar o tempo da criança e manter viva a relação com os livros

Nem sempre o encontro entre uma criança e um livro acontece como a gente imagina. Às vezes, escolhemos com carinho, o tema parece perfeito… e, ainda assim, a criança fecha o livro em poucos minutos, se levanta ou simplesmente diz: “não gostei”. Isso pode frustrar adultos que desejam formar leitores, mas é importante lembrar que o desinteresse por um livro específico não significa desinteresse pela leitura como um todo.

A relação com os livros é construída aos poucos, de forma afetiva, e passa por tentativas, erros e muitos reencontros. Quando um livro não desperta interesse, há caminhos possíveis para lidar com a situação sem transformar a leitura em obrigação.

Antes de tudo, vale respirar fundo e tirar o peso da expectativa. Nem todo livro vai encantar toda criança, afinal, nem todo livro te conquista também, certo? A vida leitora também se constrói por contraste: saber do que não se gosta ajuda a descobrir o que encanta. Respeitar esse movimento é um gesto de confiança no processo.

Uma boa estratégia é observar como a leitura está acontecendo. O livro pode até ser interessante, mas o momento não ajuda: a criança está cansada, com fome, agitada ou cheia de estímulos. Às vezes, trocar o horário (ler antes de dormir, depois do banho ou em um momento mais tranquilo do dia) faz toda a diferença. O ambiente também conta, por isso a importância de um espaço aconchegante, sem pressa e sem interrupções, que convide mais à escuta e à curiosidade.

Outra possibilidade é flexibilizar a forma de leitura. Nem todo livro precisa ser lido do começo ao fim, nem sempre na ordem. É possível folhear, olhar as imagens, inventar histórias a partir das ilustrações, ler apenas um trecho ou mudar a voz e a entonação para dar mais vida à narrativa. Quando a leitura se torna um espaço de brincadeira, ela se aproxima do universo infantil.

Também vale considerar se o livro escolhido dialoga com os interesses atuais da criança. Lembre-se de que elas passam por fases muito marcadas: dinossauros, princesas, carros, animais, espaço, emoções, mistérios… Quando o tema conversa com aquilo que já desperta curiosidade, o livro tende a ganhar mais sentido. Isso não significa limitar as escolhas, mas usar o interesse como ponte para ampliar repertórios aos poucos.

Se, ainda assim, o livro não funciona, tudo bem guardá-lo para depois. Muitos livros encontram seu leitor no tempo certo. Um título que hoje não chama atenção pode fazer todo sentido meses – ou até anos! – depois. Forçar a leitura costuma ter o efeito contrário: cria resistência, associa o livro à obrigação e esfria o vínculo afetivo com a leitura.

É importante também acolher a opinião da criança. Quando ela diz que não gostou, podemos perguntar, com curiosidade genuína: “O que você não gostou?” ou “O que faltou para essa história ficar mais interessante?”. Essas conversas ajudam a criança a refletir sobre suas preferências e mostram que sua voz importa. Ler também é construir pensamento crítico desde cedo.

Outro ponto essencial é justamente aquele que sempre enfatizamos por aqui: crianças aprendem muito pelo exemplo. Ver adultos lendo por prazer comunica que a leitura é algo vivo, presente no cotidiano, e não apenas uma atividade a ser cumprida. Às vezes, o interesse nasce menos do livro em si e mais do desejo de fazer parte de algo que os adultos valorizam.

Vale lembrar que a leitura não se limita ao livro físico. Histórias contadas oralmente, audiolivros, cantigas, poemas, histórias inventadas na hora também alimentam o imaginário e o gosto pelas narrativas. Tudo isso prepara o terreno para que, em algum momento, o livro seja visto como um aliado, e não como uma exigência.

Por fim, talvez a dica mais importante seja confiar. Confiar na criança, no tempo dela e no processo. Formar leitores não é sobre acumular livros lidos, mas sobre criar uma relação positiva, curiosa e afetiva com as histórias. Quando essa base existe, o interesse pela leitura encontra seu caminho – mesmo que esse caminho, nem sempre, seja linear.

Se um livro não desperta interesse hoje, ele não fracassou. Ele apenas ainda não encontrou o seu momento. E, na infância, quase tudo é uma questão de tempo, escuta e afeto.

Share Post
Written by
No comments

LEAVE A COMMENT