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As dores e as delícias de viajar com crianças

Entre imprevistos, cansaço e descobertas encantadoras, viajar em família é aprender a lidar com o caos e a encontrar beleza nele

Viajar com crianças não é exatamente como aparece nas fotos bonitas das redes sociais. Quem já tentou sair de casa com um bebê, uma criança que começou a andar ou uma em fase escolar sabe: há atrasos, imprevistos, cansaço e, muitas vezes, vontade de arrancar os cabelos – ou se jogar no chão e chorar sem fim, igual ao filho. Ao mesmo tempo, é justamente nessas viagens que nascem algumas das memórias mais doces da infância e também da vida adulta. Viajar com filhos é viver, ao mesmo tempo, os perrengues mais intensos e as delícias mais genuínas.

Logo no planejamento, os desafios começam. A mala nunca é só uma mala. É praticamente uma extensão da casa: roupas extras “por via das dúvidas”, remédios, brinquedos, livros, lanchinhos, garrafa de água, fralda (mesmo quando a criança já largou a fralda há tempos), casaco para o frio inesperado e roupa leve para o calor que ninguém previu. A sensação é de que sempre falta algo ou de que você levou coisa demais. E tudo bem. Respira. Com o tempo, a gente aprende que o essencial não cabe só na mala, mas também na flexibilidade.

Durante o trajeto, os perrengues costumam se apresentar sem aviso prévio. A criança que dormiu mal, o enjoo no carro, o choro no avião, a pergunta repetida dezenas de vezes (“já chegou?”), o banheiro que não aparece quando mais se precisa e ainda tem as brigas intermináveis entre os irmãos. Nessas horas, é fácil pensar que seria mais simples ter ficado em casa. Mas, pouco a pouco, os adultos vão percebendo que viajar com crianças exige um outro ritmo, com menos pressa, menos controle e mais escuta. Não dá para cumprir todos os roteiros, visitar todos os pontos turísticos ou seguir o plano à risca. E talvez essa seja uma das maiores lições da viagem.

As delícias começam a aparecer justamente quando a gente se permite desacelerar. No olhar curioso da criança diante de algo simples: uma concha diferente na praia, um passarinho na praça, um alimento novo no prato. Crianças veem o mundo com espanto e encantamento e viajar ao lado delas é como reaprender a olhar. Aquilo que para o adulto é banal, para a criança pode ser mágico. Um quarto de hotel vira território de exploração. Um caminho curto vira aventura. Um pequeno detalhe vira história para contar. Na rotina, muitas vezes tudo é corrido: escola, trabalho, compromissos. Na viagem, mesmo com cansaço, há mais convivência, conversas sem relógio, risadas espontâneas e muito mais colo. Dormir juntos, acordar sem despertador, comer fora de hora, quebrar pequenas regras do dia a dia. Esses momentos criam vínculos profundos e memórias afetivas que ficam para sempre.

Viajar com crianças também é um exercício de autoconhecimento para os adultos. Testa limites, paciência, expectativas. Ensina a lidar com frustrações, quando algo não sai como o esperado, e a celebrar pequenas conquistas, como um trajeto tranquilo ou uma refeição sem grandes crises. Ensina, sobretudo, que perfeição não existe. Que viagens boas não são aquelas sem problemas, mas aquelas em que, apesar dos problemas, há conexão.

Para as crianças, viajar é muito mais do que mudar de lugar. É ampliar repertório, experimentar novos sabores, ouvir novas línguas, perceber diferenças culturais, aprender a esperar, a se adaptar, a compartilhar. Mesmo que elas não se lembrem de todos os detalhes no futuro, algo fica registrado: a sensação de segurança ao lado de quem cuida, a alegria de explorar, o prazer de estar junto.

No fim das contas, os perrengues passam. O cansaço diminui. As malas são desfeitas. Mas as delícias permanecem. Ficam nas fotos imperfeitas, nas histórias repetidas, nas lembranças que aquecem o coração. Viajar com crianças não é fácil mesmo – e quem disse que era para ser? –, mas é profundamente humano, intenso e bonito. É, acima de tudo, uma forma poderosa de construir memórias, fortalecer laços e lembrar que a vida, assim como as viagens, não precisa ser perfeita para ser extraordinária.

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