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Cabelo é poder: quando o autocuidado também é construção de identidade

No mês da Consciência Negra, uma conversa com Marilda Castanha sobre beleza, infância e a liberdade de ser quem se é

Na infância, o espelho é mais do que um objeto: é um território de descobertas. Nele, as crianças começam a reconhecer seu tom de pele, o formato do rosto, o desenho dos cachos ou o volume do cabelo. É nesse reflexo que se formam, pouco a pouco, as percepções sobre beleza, pertencimento e identidade. Mas o que acontece quando esses reflexos não encontram representatividade? Quando os fios são alisados antes mesmo de serem celebrados?

Falar sobre cabelo é falar sobre poder. Sobre a força simbólica de assumir quem se é, sobre o autocuidado como gesto político e sobre o afeto que nasce quando aprendemos a cuidar de nós mesmos e ensinamos nossas crianças a fazerem o mesmo. No mês da Consciência Negra, o tema ganha ainda mais força: é tempo de revisitar nossas histórias, repensar padrões e valorizar a diversidade que compõe a beleza brasileira.

Para mergulhar nesse universo, conversamos com a ilustradora Marilda Castanha, autora de obras marcantes na literatura infantil – como o livro Ops, que faz parte da nossa coleção Literatura de Colo – que há anos vem desenhando com palavras, cores e texturas uma infância plural e potente. Na entrevista a seguir, Marilda fala sobre a construção da identidade das crianças negras e como o cuidado com o cabelo pode ser também um ato de amor, de resistência e de liberdade. Acompanhe essa conversa tão bonita e importante!

Jujuba – Quando foi a primeira vez que você sentiu que “cabelo é poder” na sua vida?

Marilda Castanha – Meus bisavós maternos, que eram de Ouro Preto, tinham descendência negra. Já meus avós paternos, imigrantes italianos, eram brancos, de olhos azuis. Eu nasci de pele clara e cabelos castanhos. Mesmo tendo bisavós e tios avós que eram negros, na minha casa, não tinha esta apropriação e a consciência desta descendência. Ou seja, este era um assunto que não era falado. Portanto, este entendimento de que cabelo é poder eu só vivenciei quando nasceram meus filhos.  O pai do Nelson era negro e nossos filhos, assim como muitos da família dele, são negros de pele clara.
Foi apenas durante a infância dos meus filhos que entendi e realmente me agarrei nesta questão de que cabelo é poder.  Isto foi vital para enfrentarmos diversas situações e conflitos. Um dia, minha menina disse que queria ter nascido loira e de olhos azuis. Eu fiquei muito impactada com isto e expliquei que para ter nascido loira e de olhos azuis, nós, eu e Nelson, tínhamos que ser loiros, mas não éramos. Mostrava fotos dos avós paternos e explicava sobre sua descendência, sempre com orgulho de sermos como somos.

É muito duro ver seus filhos sofrerem, ainda mais quando são pequenos. Durante a infância deles, diariamente, vivi o jogo de forças (e de preconceito) que existe nisto tudo. E a entrada na escola é pior ainda. Às vezes, é uma violência velada, como pano de fundo, outras vezes é de forma escancarada. Eu ouvia muitas críticas:  você deixa o cabelo da sua filha muito livre, muito solto, muito “cheio”.  Eu adorava o cabelo dela do jeito que ele era. Fui entendendo a máquina de moer identidades que está por trás desta estética autoritária, focada só nos padrões europeus de beleza, com aqueles cabelos sempre lisos e compridos.

Jujuba – Quando e por que você decidiu que criaria seus filhos na consciência de que “cabelo é poder”?

Marilda Castanha – Alguns episódios confirmaram que esse era o único caminho, principalmente quando eu ia na escola para reclamar de atitudes que considerava racistas. Uma vez, uma criança falou que o cabelo da minha filha parecia de uma bruxa. Ela só tinha 4 ou 5 anos. Maiorzinha, um coleguinha colocou um lápis no cabelo dela e disse: “olha que legal, o lápis some”. Todo mundo da sala riu e Cecília chegou em casa chorando. Uma outra vez. uma cabeleireira disse que eu não sabia cuidar do cabelo da minha filha.  Na verdade, ela disse isto porque eu tinha me recusado a fazer uma progressiva (com amônia), no cabelo da Cecília, ou seja, eu me recusei a botar química no cabelo de uma menina de 9 anos, mas quem não sabia cuidar era eu. Mais tarde, na contramão de todas estas imposições sociais e culturais, passei a levá-la em salão afro e comprava shampoos e cremes para cachos. O tempo todo eu afirmava: seu cabelo é lindo, tenha orgulho dele e da sua descendência africana.  E isto foi fundamental, pois ela foi se fortalecendo.

Hoje, meus filhos já são jovens adultos e cada um cuida de seus cabelos como querem. Cecília descolore, pinta, raspa, pinta de novo. Já teve o cabelo rosa, azul, com desenho de oncinha, de coração. O Nino já fez trança duas ou três vezes e usa o pente garfo. Eles sabem que o jeito de usarem o cabelo é um posicionamento pessoal, mas também coletivo.

Quando o Nino passou a usar o pente garfo no cabelo (que tem na ponta um desenho de um punho fechado), eu vi que isto, além de ser um ato político, era também uma questão de auto valorização, de autoestima. Há pouco tempo, ouvi da Cecília que era muito agradecida a mim por nunca ter deixado colocarem química no cabelo dela e ter repetido tanto esta questão da identidade e da beleza de seu cabelo.

Nessa trajetória, afinal já não são mais crianças, meus filhos foram buscando suas próprias referências também. Não só da estética, da escolha do salão, mas, principalmente, de leituras de autores fundamentais para o pensamento antirracista. No último Natal, Nino pediu um livro do Franz Fanon. A Cecília leu Djamila Ribeiro ainda no ensino médio. Uma formação super potente também, para eles, foi a música, a cultura rapper. Tudo isso vai além da questão estética ou de autocuidado: é ter orgulho de sua própria identidade.

Jujuba – Qual mensagem você gostaria de compartilhar com outras famílias?

Marilda castanha – Bom, talvez a mensagem que eu daria seria: não façam de conta de que não é conosco, não façam de conta de que não vivemos numa sociedade racista, não façam de conta de que palavras e gestos (mesmo vindo de crianças) não machucam e não façam de conta que identidade e ancestralidade não importam, muito pelo contrário, saber de onde viemos ou porque somos assim é questão fundamental.

Jujuba – Complete a frase: “Cabelo é poder porque…”.

Marilda Castanha – … envolve autoconhecimento e autoestima. Não é uma questão meramente estética, e sim algo relacionado a uma linguagem não só corporal como cultural e coletiva. É também um ato de resistência.

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