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Doomscrolling infantil: quando o dedo não para de rolar e a infância pede cuidado

Como o consumo excessivo de notícias e vídeos negativos afeta as crianças e o que os adultos podem fazer para protegê-las

Se você já se pegou rolando a tela do celular sem perceber o tempo passar, pulando de uma notícia ruim para outra, você já experimentou o chamado doomscrolling. Entre adultos, esse comportamento virou quase um hábito automático. Mas o que muita gente ainda não percebe é que ele também está chegando à infância e, nas crianças, os impactos podem ser ainda mais profundos.

O doomscrolling infantil acontece quando a criança consome, de forma repetitiva e prolongada, conteúdos digitais que trazem medo, violência, tragédias, conflitos, catástrofes ou mensagens alarmistas. Pode ser em vídeos curtos, redes sociais, plataformas de streaming, jogos com chats abertos ou até em manchetes que aparecem sem filtro enquanto o adulto navega perto dela. Diferente do adulto, a criança ainda não tem maturidade emocional nem repertório para compreender, relativizar ou “desligar” dessas informações. O corpo sente antes que a cabeça entenda.

Na prática, isso pode aparecer de muitas formas. A criança fica mais ansiosa, irritada ou assustada sem conseguir explicar o motivo. Começa a ter dificuldade para dormir, medo de ficar sozinha, preocupação excessiva com a morte, com doenças ou com acontecimentos distantes da sua realidade. Algumas passam a fazer perguntas repetidas sobre temas que viram na tela, outras se fecham, ficam mais quietas ou parecem “ligadas demais” mesmo quando o corpo está cansado. Tudo isso pode ser um sinal de que algo que ela está consumindo ultrapassou o limite do que consegue elaborar.

É importante lembrar que o cérebro infantil ainda está em formação. Ele aprende por repetição, imagens e emoções intensas. Quando a criança é exposta continuamente a conteúdos negativos, o cérebro entende que o mundo é um lugar perigoso o tempo todo. Isso ativa o estado de alerta, aumenta o estresse e diminui o espaço interno para a brincadeira, a imaginação e a curiosidade – pilares fundamentais do desenvolvimento saudável.

Proteger as crianças do doomscrolling não significa colocá-las em uma bolha ou fingir que o mundo não tem problemas. Significa oferecer mediação, contexto e limites. O primeiro passo é o olhar atento do adulto. Que tipo de conteúdo chega até essa criança? Em quais plataformas? Por quanto tempo? Muitas vezes, o problema não está apenas no tempo de tela, mas na qualidade do que é consumido e na ausência de um adulto por perto para ajudar a traduzir o que aparece.

Outro ponto essencial é o exemplo, afinal, crianças observam mais do que escutam. Se o adulto passa horas rolando o celular, reagindo com espanto, raiva ou ansiedade às notícias, a mensagem que fica é clara: esse comportamento é normal. Criar momentos sem tela em família, especialmente antes de dormir, ajuda a regular não só o uso dos dispositivos, mas também o clima emocional da casa.

Conversar com as crianças sobre o que elas veem é uma forma poderosa de proteção. Perguntar, com curiosidade genuína “O que você viu hoje?”, “Isso te deixou com algum sentimento estranho?”, “Quer me contar?” abre espaço para que a criança organize o que absorveu. Quando surgirem assuntos difíceis, o adulto pode acolher, nomear emoções e explicar com palavras simples, sem detalhes desnecessários e sem alimentar o medo. Às vezes, só dizer “isso é algo que os adultos estão cuidando” já traz alívio.

Também vale apostar em conteúdos que nutrem, em vez de esgotar. Histórias, músicas, desenhos, livros e brincadeiras que despertam riso, imaginação e encantamento ajudam a equilibrar o excesso de estímulos negativos. O cérebro precisa dessas pausas para se desenvolver de forma saudável. O tédio, inclusive, é um aliado importante, pois é nele que nasce a criatividade, o brincar livre e a capacidade de estar consigo mesmo sem depender da próxima rolagem.

Por fim, é importante lembrar que cada criança reage de um jeito. Algumas são mais sensíveis, outras parecem lidar melhor, mas todas precisam de adultos atentos, presentes e disponíveis. Se os sinais de ansiedade, medo ou alteração de comportamento persistirem, buscar orientação de um profissional pode ser um cuidado necessário e amoroso. A infância não precisa ser desconectada da realidade, mas precisa ser protegida do excesso. No contexto atual da humanidade, que convida o dedo a rolar sem parar, talvez o maior gesto de cuidado seja ajudar a criança a parar, respirar, brincar e sentir que o mundo, apesar de tudo, ainda pode ser um lugar seguro para crescer.

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