Entre festas, boletins, prazos e expectativas, é possível desacelerar, cuidar de si e da família com mais leveza
Fim de ano. Duas palavras que, só de ouvir, já trazem um misto de sentimentos: alegria, cansaço, gratidão, ansiedade. É o período das festas, das confraternizações, dos boletins escolares, dos relatórios de trabalho, das listas de presentes e das promessas de um novo ciclo. Tudo parece se acumular ao mesmo tempo. E, no meio dessa avalanche de tarefas e emoções, muitas mães sentem o peso da sobrecarga mental – aquela aquela sensação de ter mil abas abertas na cabeça, tentando dar conta de tudo e de todos.
Mas antes de pensar em “organizar melhor o tempo” ou “ser mais produtiva”, é importante fazer uma pausa e respirar. A sobrecarga mental do fim do ano não é sinal de fraqueza. Ela é um reflexo direto da quantidade de responsabilidades visíveis e invisíveis, que recaem especialmente sobre as mulheres, ainda hoje. É o trabalho que precisa ser encerrado, a ceia que precisa sair perfeita, o amigo secreto da escola, o figurino da apresentação, o presente da sogra, o cartão da professora, o check-up dos filhos. E, por trás de cada uma dessas tarefas, existe uma tentativa de fazer tudo dar certo, mesmo quando o corpo e a mente pedem descanso.
O primeiro passo para lidar com a sobrecarga é reconhecê-la. Muitas mães passam o ano inteiro no modo “piloto automático”, acostumadas a conciliar trabalho, casa e filhos sem se dar conta do quanto isso consome energia emocional. O fim do ano, com seu ritmo acelerado e expectativas elevadas, costuma ser o momento em que esse acúmulo transborda.
A chamada “carga mental” é um conceito que vem ganhando espaço justamente para nomear algo que sempre existiu: o esforço invisível de planejar, prever e administrar o cotidiano familiar. É ela que faz você lembrar que o lanche acabou, que o uniforme precisa ser lavado, que é hora de marcar o dentista. E, no fim do ano, essa lista mental parece não ter fim.
Reconhecer essa carga é libertador, porque permite olhar para si com mais compaixão. Entender que não é preciso ser perfeita, nem dar conta de tudo. E que o “não” também é uma forma de cuidado.

Fazer menos, sentir mais
É natural querer encerrar o ano “em dia”, com as pendências resolvidas, os armários organizados e a vida em ordem. Mas talvez o verdadeiro equilíbrio esteja em aceitar que nem tudo precisa ser feito agora. Fazer menos pode ser um ato de sabedoria. Que tal escolher o que realmente importa para a sua família neste momento? Talvez abrir mão de uma festa e ficar em casa vendo um filme juntos, ou simplificar a ceia de Natal para poder dormir mais cedo. A rotina de fim de ano costuma ser cheia de obrigações autoimpostas e muitas delas podem ser repensadas. Pergunte-se: isso precisa mesmo ser feito agora? Isso vai fazer bem a mim e aos meus filhos? Se a resposta for “não”, tudo bem deixar para depois.
Outro ponto importante é lembrar que você não precisa carregar tudo sozinha. Delegar não é falhar, é compartilhar. Incluir o parceiro, os filhos (dentro das possibilidades de cada idade), familiares e amigos nas tarefas de fim de ano é uma forma de construir relações mais equilibradas e de ensinar sobre cooperação e empatia. Crianças podem participar de várias formas, por exemplo: ajudando a montar a árvore, escolhendo presentes simples para amigos, escrevendo cartões ou até participando das tarefas domésticas. Elas não só se sentem parte do processo, como aprendem que o cuidado com o outro é coletivo e não um fardo individual.
No meio da correria, é fácil esquecer que descansar também é parte do processo. O corpo e a mente precisam de pausas para se recompor. Dormir bem, caminhar, ler um livro, ouvir música, conversar sem pressa. Tudo isso é também fazer algo importante: cuidar de si. Tente reservar um momento do seu dia só para você, mesmo que sejam quinze minutos de silêncio ou um banho demorado. Não é egoísmo, é necessidade. Uma mãe exausta dificilmente consegue estar presente de verdade. O descanso é o que permite reconectar-se com o que realmente importa.
E vamos deixar a culpa de lado. A culpa materna é uma velha companheira e costuma aparecer com força nessa época do ano. Culpa por não participar de todas as confraternizações, por não preparar uma ceia perfeita, por se sentir cansada demais. Mas é importante lembrar: não existe Natal ideal nem fim de ano sem tropeços. O que existe é o real, o possível, o suficiente. Portanto, abra espaço para o imperfeito. Para a bagunça da casa, para o atraso nos cartões, para o improviso na sobremesa. É nas imperfeições que muitas vezes nascem as melhores memórias. As crianças não vão lembrar do embrulho bonito, mas da risada ao redor da mesa, do abraço apertado, do tempo compartilhado.
Desacelerar, portanto, não é apenas diminuir o ritmo, mas mudar o olhar. É escolher estar presente no que realmente tem sentido. É entender que o fim do ano pode ser, sim, um tempo de celebração, mas também de pausa e de reconexão. Permita-se desacelerar. Desligue o piloto automático. Dê espaço para o que faz bem, sem se cobrar tanto. O novo ano chega de qualquer jeito, mas a forma como você chega até ele faz toda a diferença.
Lembre-se: fim de ano também é tempo de gentileza, principalmente com você mesma.