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A infância importa – e muito!

Descubra por que os primeiros seis anos de vida são decisivos para o futuro das crianças e como a sociedade, os espaços públicos e as políticas devem garantir seus direitos

A primeira infância, que abrange os primeiros seis anos de vida, é uma fase única e insubstituível. Nesse período, o cérebro da criança está em pleno desenvolvimento, estabelecendo mais de 90% das conexões neuronais que servirão de base para todo o aprendizado futuro. Pesquisas mostram que, nessa fase, o cérebro chega a formar cerca de um milhão de sinapses por segundo, o que revela a potência desse momento para o desenvolvimento cognitivo, emocional e físico. Não por acaso, especialistas chamam essa etapa de uma verdadeira “janela de oportunidades”: cuidar, estimular e proteger as crianças nesse período significa investir no futuro de toda a sociedade.

Apesar disso, ainda existe um grande desconhecimento sobre a importância da primeira infância. Uma pesquisa realizada pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, em parceria com o Datafolha, revelou que 84% da população brasileira não consideram que os primeiros seis anos de vida são a fase mais importante do desenvolvimento humano. Para 41% dos entrevistados, essa etapa se dá na vida adulta; para 25%, na adolescência; e apenas 15% reconhecem a primeira infância como esse período-chave. O dado se agrava quando olhamos para o entendimento do termo em si: 42% da população não sabem ou não conhecem o significado de “primeira infância” e somente 2% da população (ou 4% entre cuidadores) conseguiram definir corretamente essa fase como o período de 0 a 6 anos. Esses números mostram como as crianças ainda são invisibilizadas em seus direitos e necessidades, o que dificulta avanços em políticas públicas e no olhar social sobre elas.

O levantamento também trouxe informações sobre o que cuidadores e familiares consideram mais importante para as crianças nessa fase. As respostas apontaram o amor (43%) e o carinho (33%) como principais prioridades, sobretudo entre crianças de 0 a 3 anos, quando 46% dos entrevistados destacaram a importância do afeto e 39% ressaltaram o valor do cuidado. Frequentar creche ou pré-escola, no entanto, apareceu como prioridade para apenas 14% dos respondentes, um dado que mostra como o acesso à educação infantil ainda não é visto como essencial. Outro resultado chama a atenção: o respeito aos mais velhos foi citado por 96% dos entrevistados, à frente de aspectos como brincar livre (63%) ou frequentar a escola (81%). Isso revela uma valorização da obediência e da disciplina, em detrimento de práticas fundamentais para o desenvolvimento integral da criança, como a convivência, a ludicidade e a aprendizagem coletiva.

A questão da disciplina, aliás, também foi analisada pela pesquisa e trouxe dados preocupantes. Cerca de 29% dos entrevistados admitiram o uso de práticas violentas, como palmadas ou beliscões, inclusive com crianças de até 3 anos. Além disso, 58% relataram recorrer ao castigo e 43% disseram que gritam ou brigam com frequência. Apesar disso, apenas 10% acreditam que essas práticas são eficazes. O dado reforça como ainda precisamos caminhar para abandonar métodos punitivos e violentos e substituí-los por práticas de disciplina positiva, que respeitem a criança e promovam um desenvolvimento emocional saudável.

Outro ponto de destaque é o uso de telas na primeira infância. O estudo mostrou que 78% das crianças de até 3 anos e 94% das de 4 a 6 anos têm contato diário com dispositivos eletrônicos, em média de 2 a 3 horas por dia. A exposição precoce e prolongada preocupa especialistas porque pode gerar impactos na saúde e no comportamento: 56% dos entrevistados apontaram prejuízos à saúde e 42% citaram problemas na socialização. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda que crianças de até 2 anos não tenham nenhum contato com telas e que, após essa idade, o tempo seja limitado a no máximo uma hora por dia, sempre com acompanhamento adulto. Ainda que muitos cuidadores reconheçam os riscos, os aparelhos acabam sendo usados como recurso de alívio para adultos sobrecarregados — um sinal da necessidade de apoio maior às famílias.

As crianças precisam ser vistas
Todos esses dados reforçam uma ideia fundamental: crianças de 0 a 6 anos não são “adultos em miniatura” ou “o futuro da sociedade”, mas sim pessoas plenas, com direitos hoje. O Estatuto da Criança e do Adolescente e a própria Constituição Federal estabelecem a proteção integral como princípio, e a Lei nº 13.257/2016 reforça o compromisso da sociedade, das famílias e do Estado com a primeira infância. Respeitar esses direitos significa pensar espaços, programas e políticas públicas que atendam às necessidades dessa fase: creches acolhedoras, parques seguros, unidades de saúde voltadas à infância, programas de apoio à parentalidade, entre outros.

Nesse ponto, é importante também refletir sobre como a sociedade encara a presença das crianças nos espaços coletivos. Movimentos como o chamado childfree, que defendem lugares sem a presença de crianças, expressam um olhar profundamente excludente e até violento em relação à infância. Essa postura ignora que todo adulto já foi uma criança um dia e que, se hoje desfruta de direitos, isso só foi possível porque teve a chance de viver a sua própria infância. Rejeitar a presença das crianças é, de certa forma, rejeitar a humanidade em sua forma mais genuína e vulnerável. É negar o convívio intergeracional, que é tão importante para a construção de uma sociedade mais empática, solidária e inclusiva. Esse tipo de visão não apenas reforça a invisibilidade das crianças, como também as desumaniza e as reduz a incômodos ou obstáculos, quando, na realidade, elas são sujeitos de direitos que precisam de acolhimento, proteção e espaço para se desenvolver.

Quando a sociedade deixa de ver a criança apenas como alguém que “vai ser” e passa a reconhecê-la como alguém que “já é”, o olhar muda completamente. Passamos a compreender que cada experiência, cada cuidado, cada vínculo construído agora influencia diretamente no futuro, mas também importa no presente. Garantir direitos para a primeira infância não é apenas preparar cidadãos mais saudáveis e produtivos, é também assegurar dignidade, respeito e afeto para aqueles que já estão aqui e merecem viver plenamente a sua infância.

Avançar nesse sentido requer um esforço conjunto: educar e sensibilizar a população sobre a importância da primeira infância, investir em creches e pré-escolas de qualidade, formar profissionais preparados, apoiar famílias no dia a dia e garantir políticas públicas integradas entre saúde, educação e assistência social. Significa também valorizar o brincar, limitar o uso de telas de acordo com as recomendações médicas, combater práticas violentas de disciplina e promover espaços seguros e estimulantes.

Garantir os direitos da primeira infância não é um favor, nem uma concessão: é uma responsabilidade coletiva. É reconhecer que cada criança, com seu riso, seu choro, suas perguntas sem fim e sua curiosidade infinita, é um ser humano completo que precisa ser respeitado aqui e agora. Movimentos e práticas sociais que tentam calar ou excluir a infância esquecem uma verdade simples e incontornável: toda pessoa já foi criança. Se hoje podemos falar de direitos, de cidadania e de futuro, é porque um dia alguém cuidou de nós. Fechar os olhos para as necessidades das crianças é negar a nossa própria história. Por isso, precisamos afirmar, com toda a clareza: não há democracia plena, não há justiça social, não há humanidade possível sem o respeito absoluto às crianças.

A infância é o presente que sustenta o futuro e a sociedade que não a protege, inevitavelmente, desmorona. Afinal, como bem disse Lya Luft, “a infância é um chão que a gente pisa a vida inteira”.

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